Maio 2007


Salta de lado, corre e pára.

Com as patas dentro do aquário, caça o peixinho de vidro

arranha as minhas costas, ronrona e atravessa a sala

com olhos fechados sabe de cor os passos que eu dou

És meu, sou eu, o gat(un)o da casa.

Gatuno

O Jorge, O Jorge
Vem de Aruanda
Vem salvar os vossos filhos
São Jorge venceu demanda
Ogum, Ogum
Ogum meu pai
O senhor mesmo é quem disse
Que filho de Umbanda não cai.

São Jorge, meu pai, saravá!

 

Nossa mãe, dizei depressa
que vestido é esse vestido.”

Eu ri baixinho e repeti ” que vestido é esse vestido”, ele olhou pra mim com cara de “ficou maluca” e eu só disse:

-O caso do vestido.

Repeti todas as falas do poema, e comparei cada cena com o que eu imaginava, cada passo e cada lágrima.

Sempre imaginei um lindo vestido vermelho com algumas rendas e sem estampas, lá era diferente…rosa e branco, era cheio de flores e folhas verdes.

A amante sempre usava ele na minha imaginação, os lábios eram vermelhos e carnudos,tinha a face rosada e um lindo cabelo castanho, lá ele era preto, quer dizer…uma piruca preta. Ela era sempre sensual, um olhar de parar qualquer homem, mas no filme só parou o Marido, que tinha um nome estranho.

Ulisses, Clara, Ritinha…esses eram os nomes dos personagens, O marido e suas duas filhas. Não dei muita importância pro nome da Mulher e da Amante, elas eram importantes demais pra eu substituir esse posto por um nome.

Mulher: frágil, companheira e amorosa.

Amante: mulher falsa e provocante.

(risos)

Os passos do Marido eram bem firmes e marcantes, só fui perceber isso no final quando ele entrou porta adentro e fez um som forte no assoalho da casa, imaginei ele subindo as escadas e a Mulher dizendo:

“-Minhas filhas, eis que ouço vosso pai subindo as escadas…”

“…era sempre o mesmo homem,comia meio de lado e nem estava mais velho.”

Ela nem tinha envelhecido e nem as filhas crescido, era a mesma familia só tinham uma historinha a mais pra contar.

“…tudo foi um sonho, 
vestido não há… nem nada.”

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.Ausência

“Vem cá, eu  te faço companhia…”

Écoute! tout se tait; songe à ta bien-aimée

Ce soir, sous les tilleuls, à la sombre ramée,
Le rayon du couchant laisse un adieu plus doux,
Ce soir, tout va fleurir: I’irnmortelle nature
Se remplit de parfuns, d’amour et de murmure
Comme le lit joyeux de deux jeunes époux.
(A. de Musset)

Ontem à tarde, quando o sol morria,
A natureza era um poema santo,
De cada moita a escuridão saia,
De cada gruta rebentava um canto,
Ontem à tarde, quando o sol morria.
Do céu azul na profundeza escura
Brilhava a estrela, como um fruto louro,
E qual a foice, que no chão fulgura,
Mostrava a lua o semicirc’lo d’ouro,
Do céu azul na profundeza escura.
Larga harmonia embalsamava os ares!
Cantava o ninho-suspirava o lago…
E a verde pluma dos sutis palmares
Tinha das ondas o murmúrio vago…
Larga harmonia embalsamava os ares.
Era dos seres a harmonia imensa,
Vago concerto de saudade infinda!
(…)
A tarde e a ventania
(salvador cabello)